Diário de um SOLO

Diário de um SOLO

Mensagem do NEPAR em comemoração ao Dia Nacional da Conservação do Solo

Diário de um SOLO
por Luís César Cassol*

Nasci! Não se sabe exatamente quando, mas há milhares de anos transito mundo afora. Genericamente me deram o nome de SOLO, mas ao longo da minha vida me incluem alguns prefixos. Aqui no Brasil, dada a minha importância para gerar dividendos ao PIB nacional, tenho até um sistema que me classifica. Começo sendo chamado de NEO, na juventude viro CAMBI e envelheço sendo LATO, mas sempre sou o SOLO, “sin perder la ternura jamás”!

Na verdade, tenho muitas variações, nem sempre sigo o mesmo caminho. Como um ser vivo, sou fruto da atuação da genética + meio. Meus caminhos já começam a ser traçados na maternidade, com aquele que me deu origem. Porém, o meio, através do clima, do relevo e dos organismos que em mim habitam também vão moldando o meu destino. Toda essa mudança ocorre ao longo do tempo – e que tempo – sendo também modificada pelo homem.

Ah! O homem … Desde a era primitiva, quando dependia da caça, da pesca e do consumo de plantas comestíveis, até a revolução da agricultura, que foi crescendo e se desenvolvendo ao longo de vários séculos (com início ainda antes de Cristo), eu (solo) sempre fui a base para a sua sobrevivência. Ao longo do tempo fui sendo usado de várias maneiras, mas nem sempre respeitaram as minhas aptidões e, por vezes, me exigem mais do que efetivamente posso dar.

Sou um corpo natural, tenho minhas fragilidades, eu também choro e quando minhas veias se abrem começo a entrar em colapso. Aos poucos, n´outras vezes rapidamente, vou morrendo e o ser (des)humano me abandonando.

Olha como é engraçado, faço a alegria de um povo, por minha culpa as pessoas podem se alimentar (se a comida não chega na mesa de todos, é outra história), podem conviver em comunidades e evoluir de forma sustentável. Eu não reclamo, mesmo sabendo que as pessoas pisam em mim, os animais pisam em mim, as plantas me exploram a exaustão, as máquinas desfilam pesadamente sobre toda a minha estrutura, as construções crescem imponentes sobre meu corpo.

Eu sou como aquela mãe zelosa capaz de suportar muitas dores, mas como sou um ser da natureza, n’algumas vezes reajo, grito por um socorro que nem sempre vem, mas, na minha infinita bondade, rogo ao Pai para perdoar aqueles que não sabem o que fazem. Por minha culpa (talvez até seja muita pretensão) se desenvolveram as sociedades, umas mais outras menos, e como um corpo natural ocupo um espaço neste ambiente, mas sou incapaz de viver só.

Tô sabendo que nos dias atuais o mundo está vivendo uma pandemia, onde os humanos estão sendo obrigados a ficar distantes daqueles que amam e se habituando a viverem sós. Não está sendo nada fácil pra eles. Pois eu (solo) também sou assim, divido espaço e convivo com outros recursos naturais. Preciso da água, do oxigênio e da energia gerada pelo Sol para poder cumprir uma das minhas mais nobres funções, que é a produção de alimentos.

Mas, se a humanidade depende da atuação conjunta de vários recursos naturais, por que destinam cada vez menos tempo com práticas para a preservação dos mesmos? Ah! Voltemos ao homem … Num momento em que está sendo colocado a prova, quando percebe que a tecnologia e o capital são insuficientes para salvar vidas, que é impossível ser feliz sozinho, esse mesmo homem que aguarda ansiosamente a chegada da “nova normalidade”, de uma vez por todas terá que ter consciência de que eu (solo) também preciso de carinho, afeto e proteção.

Sou humilde, não preciso de muito para ser feliz, só peço que protejam minha superfície (palha), que me usem com plantas diferentes, fornecendo alimentos variados para aqueles pequenos seres (organismos) que habitam em mim (rotação), que evitem me rasgar por inteiro quando pensam que estou endurecido (revolvimento), porque é uma dor que dói no peito. Me ajudem a fazer com que a água que cai dos céus – que ainda tem sido generosa, muito embora já começa a dar sinais de que também cansou de tanto atender aos desejos (estúpidos) dos humanos –, que essa água penetre suavemente pelo meu corpo, me fazendo sorrir e formando aquilo que chamaram de lençol freático, o qual vai alimentar rios, lagos e oceanos, além das necessidades básicas dos humanos.

Como tenho um bom coração, também quero agradecer ao homem moderno quando este criou um tal sistema plantio direto. Esse modelo me faz feliz, atende minhas premissas básicas, mas, querido homem, como já te disse e o tempo atual está te mostrando, é impossível ser feliz sozinho. Entenda, de uma vez por todas, que a água, minha companheira inseparável, mas que por vezes vem muito forte (com alta energia cinética), ela só será contida em sua velocidade e armazenada dentro de mim, se você construir barreiras mecânicas para tal fim.

Se as premissas do plantio direto, incluindo o controle do escoamento da água (terraços), não for corretamente executada, lamento, mas me despeço cantando os seguintes versos: “já está chegando a hora de ir, venho aqui me despedir e dizer, que em qualquer lugar por onde eu andar, vou lembrar de você”. Parto sem mágoas, mas com meu coração degradado …

Produza, mas não me degrade! Seja intenso, mas sustentável! A qualidade do “novo mundo” desejado pode começar pelo respeito a mim e aos demais recursos naturais.

* O autor é graduado em Agronomia (1990) pela UFSM, Mestre (1995) e Doutor em Ciência do Solo (2003) pela UFRGS. É Professor Associado da UTFPR/Campus Pato Branco e Responsável Técnico pelo Laboratório de Análises de Solo. É sócio da SBCS e tem voluntariamente contribuído junto à Diretoria do NEPAR nas gestões 2013-2015, 2015-2017 e atual (2019-2020).

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