15 de abril de 2026, Dia Nacional da Conservação do Solo
Carta de um SOLO à Sociedade Brasileira
Prezada sociedade brasileira,
Valho-me desse humano, que dedilha sobre o teclado de um computador, para transmitir uma mensagem de suma importância para a sua sobrevivência. Não sou eu quem escreve, mas quem faz isso por mim está sendo sustentado, silenciosamente, sob meus pés. Vou soltar a minha voz, palavra por palavra, eis aqui alguém se entregando e mostrando as suas fragilidades e potencialidades. “Coração na boca, peito aberto, vou sangrando…”, quando você, humano, faz de mim alguém esquecido, frequentemente subestimado, e abandona os cuidados necessários para conservar-me e manter-me saudável por longos anos, logo eu que sou absolutamente indispensável para a existência de todos vocês.
Sou muito mais do que poeira ou terra. Em mim, germinam sementes, desenvolvem-se raízes e nasce o alimento que chega diariamente à sua mesa. Por vezes querem me trocar pela água para produzir o alimento, mas na verdade ela é uma companheira inseparável, uma irmã siamesa, eu não vivo sem ela que dissolve meus nutrientes e, quando estou saudável, funciono como esponja armazenando-a e abastecendo lençóis freáticos; ela, por sua vez, se deposita sobre mim, percorre caminhos distantes e nutre as plantas e animais que produzirão os alimentos.
Normalmente vocês, humanos, me veem apenas como um meio para produção de alimentos, fibra e energia. Mas, desculpem minha prepotência, sou muito mais do que isso e realizo funções essenciais para a vida na Terra. Sou o suporte da biodiversidade e o guardião de inúmeros organismos que, mesmo invisíveis, desempenham funções vitais para o equilíbrio dos ecossistemas. Atuo na ciclagem de nutrientes e no sequestro de carbono, mas, calma lá, não se assuste … esse sequestro é fundamental para regular o clima do Planeta, sou um dos principais reservatórios de carbono da humanidade e contribuo para a mitigação das mudanças climáticas. Se você não cuidar de mim, parte desse carbono retorna para a atmosfera na forma de gás de efeito estufa. Não existe ninguém tão plural e diverso como eu, com várias cores, odores e sabores; sou muito resistente e capaz de suportar a pressão, coisa que você, humano, nem sempre consegue; sou resiliente e me recupero do impacto… quer dizer, nem sempre! Estou em suas mãos! Você depende de mim, mas minha saúde também depende de ti. Unamo-nos!
Apesar de minha importância, por vezes tenho sido tratado com descuido. Eu nasci para ser usado intensivamente, desde que com os cuidados adequados e com as práticas conservacionistas, como qualquer ser vivo. Infelizmente sofro com a erosão. A água, minha irmã, por vezes me arrasta com fúria, rasgando minha superfície e expondo minhas veias mais profundas. Quando sou maltratado, sufocado pelo excesso de insumos, esmagado pelo peso do tráfego que me compacta e empobrecido pela perda da matéria orgânica que sustenta minha essência, sinto-me ferido. Cada prática inadequada me dilacera um pouco mais, faz-me sangrar silenciosamente, rouba minha fertilidade e enfraquece minha capacidade de sustentar a vida.
Eu sou a base da vida terrestre, mas não posso estar ‘SOLO’ nessa. Por isso, peço-lhes ajuda, atenção e responsabilidade. Cuidar de mim não é apenas uma escolha técnica, mas sim um compromisso ético com as gerações presentes e futuras. Práticas como o manejo conservacionista – alguns agora estão chamando de agricultura regenerativa –, as plantas de cobertura, a rotação de culturas, o sistema plantio direto, o terraceamento, o cultivo em nível e respeitando minha aptidão agrícola e capacidade de uso, os sistemas integrados, a adubação equilibrada e a preservação da cobertura vegetal são formas de respeitar minha existência e garantir minha continuidade.
Vocês, humanos, dedicaram esse dia 15 de abril para comemorar o Dia Nacional da Conservação do Solo. Ôba, ganhei um dia para ser lembrado, mas não posso ser cuidado apenas hoje e, sim, forever. Lembrem-se: sou um corpo natural que demora pra nascer, não se reproduz e “morre” com facilidade. Recuperar-me é possível, mas exige esforço, conhecimento e vontade coletiva.
Evitem minha degradação, mantenham-se saudável, porque sem mim não há alimento, não há água de qualidade, ar de qualidade, clima de qualidade, ou seja, não há futuro. Cuidem de mim, para que eu continue cuidando de vocês.
Com carinho e silenciosa dedicação,
Relato de um SOLO, transcrito por Luís César Cassol